Doce Luar

Versos e mensagens, minhas ou de outrém...

Algumas coisas iluminam o cair da noite
e pintam de um sofrimento um Rembrandt.
Mas em geral a rapidez do tempo
é uma piada; à nossa custa. A mariposa
é incapaz de rir. Que sorte.
Os mitos estão mortos.


(Stan Rice)


Body of work - 1983

 

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
São cavalos corredores
   Com asas de ferro e chumbo,
                      Caídos nas águas fundas,                      
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,

Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

(Agustina Bessa-Luís)


Chorei...
Mas sempre com a cabeça erguida
Minhas lágrimas, curam minha ferida,
Dores de um coração amante
Cacos de um  amor falsante

Meu coração negro e inquebrável
Me fez fazer juras de amor
Minha vida hoje é insustentável
Não consigo parar a dor
Me perdi, sozinho e sem nada
Nesse lugar não vejo o céu
Minha vida está acabada
Sem cor e sem mel
Quebrada, despedaçada e amaldiçoada
Por seu amor mentiroso
Triste, nostálgico e horroroso
Que acabou com meu ser

Meu coração ficou por tempos despedaçado
Amordaçado por você
Hoje ele grita palavras que sempre quis dizer
Mas de boca fechada não podia
Pois seu único medo o impedia
Impedia de te falar...
Com medo de te perder
Talvez depois  me arrependa
Mas hoje sou inquebrável
Minha alma é intocável
Nunca mais amarei ninguem
Pois você deixou em cacos meu coração de vidro
Mas agora ele é inquebrável
Pois o último pulso se extinguiu
Minha linda alma se partiu
E não voltará jamais

Inquebrável...
Meu coração partiu

(Wilton Black)




Você fica em minha vida
Como um poema inacabado
Como a Sinfonia
Beleza não finda
Porque soube ser começo
Mas não fim.
Você fica e eu sigo
Ou você segue e eu fico
Sempre desencontrados
Um buscando a estrada
O outro a direção.

E o fogo que arde aqui dentro
Magoa a mulher
Queimando a alma
Matando os desejos
Se apagando aos poucos.   
Não acho poesia
Para terminar você!
Ai!... Como isso dói
De não saber
Construir um fim!
De não ficar
Que a metade de mim!
E você fica assim
Como reticências
No fim de um poema.
E eu, desiludida
Sigo a vida
Com esse amargo na boca
Por não saber ter tido
A rima final.

 (Letícia Thompson)



Brisa
Doce e suave,
Amarga e cruel
Brisa
A que trouxe-me voce
é  a mesma
Que te levou pro céu
Brisa
A que me fez sorrir 
é a mesma
Que te fez partir


Brisa
Que se transformou em vento
E o tempo
transformou em
Brisa
Apenas e somente
Brisa
...



Pouca coisa é
mais digna de nossa atenção
do que compreender
o talento da Substância.
Uma abelha, uma abelha viva,
na vidraça, tentando sair, condenada,
sem conseguir entender.
 (Stan Rice, poema sem título
   de Pig's progress - 1976)



Sonhar
Querer 
Esperar
Encontrar
Amar
Compartilhar
Enganar
Decepcionar

Sofrer
Chorar

Hoje me peguei pensando no quanto é cansativo pensar, em como seria tão bom deixar a mente apenas vagar livremente, sem amarras de pensamentos, nem o peso das idéias, simplesmente não pensar, por um minuto que fosse, posto que na liberdade do não pensar o tempo seria dispensável, seria apenas o vazio, vaz....

 
 
 
(...)sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança,
pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido
ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.
         
Horácio - "Odes" (I,, 11.8)      



Lua alta
E por trás
De tantas nuvens
Brilham estrelas...

Aqui,
Por trás desta neblina,
Brilho também...
Sozinha
E acompanhada
De mim
E de mais ninguém...

Não direi mais nada
É o silêncio que mais convém...

Agradecida,
A Lua
Sussurra:
Amém...


(Ana C. Pozza)




O que fazer quando 
o cansaço transcende 
os limites do corpo
e atinge o emocional?




Uma madrugada, tudo quieto,
impera a treva. A solidão escuto,
vislumbro véus de crepe no horizonte
da Natureza amarfanhada em luto.

Um pássaro noturno, depenado,
pousa num galho já se despencando
de uma roseira que na dá mais rosas ou, se elas nascem, nascem já murchando.

E, do relógio branco da parede, as setas apontadas para mim
afirmam que esta miserável noite
parou no tempo e nunca terá fim.


(Alda Pereira Pinto)




No armário do meu quarto escondo de tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto. 
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes delicadas. 
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante. 
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. 
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada: 
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão. 
De tempo e traça meu vestido me guarda. 



(Adélia Prado) 








--- Por que nos prendemos tanto às coisas que nos rodeiam? Nós lhe atribuímos significados especias, seu toque nos faz recordar momentos preciosos e/ou dolorosos, nos sentimos vazios quando eles nos faltam... Aos nossos olhos transformamos simples objetos em símbolos, símbolos de momentos perdidos, de instantes vividos, nos sentimos protegidos, nos sentimos inteiros... Isso é interessante, mórbido e ao mesmo tempo resguarda tanta vida....----











Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?



(Ferreira Gullar)








Divagando...


 ----Esses versos me fizeram pensar

     Por que não podemos ser completos?
     Por que a vida em partes? Em episódios? Em fases?
     Será que nos falta a capacidade de lidar com todas as nuances que permeiam nossa existência, ou será que é preferível que seja assim, por ser mais fácil (é fácil?) de lidar com cada parte nossa de cada vez? para que depois possamos montar o quebra cabeça de nossa existência retalhada e dizer: 'Estou completo!' ?....----







 O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre

na prisão do corpo.



(Carlos Drummond de Andrade)




 Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando dispertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são


Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.


Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.


Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.



(Fernando Pessoa)






Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
"É alguém - fiquei a murmurar - que bate à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais."

Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
e o fogo agônico animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
e nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais."

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
"Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito ai fora me esperais;
mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
assim de leve, em hora morta." Escancarei então a porta:
- escuridão, e nada mais.

Sondei a noite erma e tranqüila, olhei-a fundo, a perquiri-la,
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,
só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: "Lenora!"
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: "Lenora!"
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
"É na janela"- penso então. - "Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
o vento sopra. E só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais."

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
- é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
adeja e pousa sobre o busto - uma escultura de Minerva,
bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
"Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular"- então lhe digo -
"não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo,
qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
e que se chame "Nunca mais".

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
enquanto a mágoa me envenena: "Amigos... sempre vão-se embora.
como a esperança, ao vir a aurora, ELE também há de ir-se embora."
E disse o Corvo: "Nunca mais."

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
julgo: "É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
e a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
de seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: - o ritornelo
de "Nunca, nunca, nunca mais".

como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
e, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo
grasnava sempre: "Nunca mais."

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
dessa poltrona em que ELA, ausente, à luz que cai suavemente,
já não repousa, ah! nunca mais ...

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
"Mísero!", exclamo. "Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,
esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora.
Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta! - brado.- Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
de algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
EXISTE um bálsamo em Galaad? Imploro! dize-mo, em verdade!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta!" exclamo. "Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

"Seja isso a nossa despedida! - ergo-me e grito, alma incendida. -
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"


E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
não há de erguer-se, ai! nunca mais!


(Edgar Allan Poe)
Tradução de Milton Amado, 1943.
                                                                                                                                                                     



Um pássaro esvoaça,
Afastando as nuvens tal um véu inútil,
Nunca teve medo da luz,
Recluso do seu voo
Nunca teve sombra.

Conchas de colheitas despedaçadas pelo sol.
No bosque todas as folhas dizem que sim,
Elas só sabem dizer que sim,
A toda a questão toda resposta
E o orvalho gira no fundo desse sim.

Um homem de olhos suaves descreve o céu do amor.
Junta as maravilhas
Como num bosque as folhas,
Como os pássaros nas suas asas
E os homens no sono.



(George Braque)




Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos contorta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-- Velho caixão a carregar destroços --

Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!
 

(Augusto dos Anjos)





Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incertezas...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!


(Mario Quintana)





Eu te tenho a cada parte minha espalhado
a cada centímetro que olho, pixelizado
na palavra, na digital, no meu livro, no meu vídeo
envolvente, envolvida, desenvolta, desencantada

por mais que a irresistência me rodeie
e mesmo que meu eu escape
me fazendo lembrar-te como que forçada
eu te tenho a cada parte minha espalhado

se a mim não há fuga nem perdão
de nada me adiantam vestes de personagem
a mim só basta deixar marcas profundas
tu me tens a cada parte tua espalhada

tu me tens a cada parte tua espalhada
no beijo que te sela a boca
no abraço que te aquieta
no calor que nos abrasa acalentados

meu cheiro no teu travesseiro,
o meu cabelo que te envenena
o olhar que te amedronta
tu/eu me/te tens/tenho a cada parte tua/minha espalhada/espalhado  



(Debora)







Traze-me um pouco das
sombras serenas
que as nuvens transportam
por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
-vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da
alvura dos luares
que a noite sustenta
no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua
lembrança, aroma perdido,
saudade da flor!
- Vê que nem te digo-
-esperança!
- Vê que nem sequer
sonho - amor!

(Cecília Meireles)


Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu?

Clarice Lispector

Carinho

Carinho
da amiga Dandara

da amiga Srtª Bêêh

recebido da Joyce Kelly

da Joyce Kelly

Da Pat...

De A dangerous mind (1 dos 4)

de A Dangerous Mind e Somewere

de A Dangerous Mind

de A Dangerous Mind
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Todos os textos aqui expostos e que não possuem assinatura são de autoria da proprietária do blog, os demais encontram-se devidamente referenciados. As imagens podem ser encontradas no google images. Por favor, não plagie, respeite os autores, crie suas próprias estórias. Obrigada pela visita, voltem sempre! bjus da kirah^^

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Talvez eu já saiba a resposta...

Mo Foo